Numa cama de rosas

Numa cama de rosas

A lua acena-me altiva detrás dos minúsculos orifícios do xadrez. E é a luz dos teus olhos que na língua deste incêndio nocturno vejo renascer. Não mais me inquieta estar aqui. O calabouço é agora a crisálida em que com as minhas mãos (que ainda são inteiramente tuas) te manufacturo.

Amor,

o aroma deste dia anoitecido põe-me a degustar o sabor da tua pele; a ruminar memórias que, no início de tudo, ao nosso ver, só caberiam no impossível tempo futuro; impulsiona-me a reviver-te, a beber-te a carne cheia de fogo.

Amor,

penso agora em nós, enquanto o seu nome reescreve-se a chumbo nas laudas do meu sangue. Invoco-te perante a voz rouca de Bon Jovi que, antes do caos, nos escoltava sempre os infinitos enlevos:

I wanna lay you down in a bed of roses...

E a lua continua acesa. Lembra-me que te matei hoje há quase uma década. E é um tempo igual que ainda me resta aqui cumprir. Não me arrependo. Era imperioso que morresses para que eu saísse do cárcere das tuas mãos; para que escapasse da jaula que era o amor que me proporcionavas; para que nenhuma outra mulher caísse nas garras da tua psicopatia.

Confesso, foi muito difícil tomar a derradeira decisão.

O mundo dizia-me:

“Saia desse lar...”

“Abandone esse teu marido bêbado e violento.”

“Não te cansas de almoçar e jantar a chapadas e pontapés? Melhor é abandonar esse monstro antes de ele te matar.”

“Denuncie esse maluco... deixa a lei regular-lhe os miolos.”

E eu ignorei todos estes conselhos. Preferi matar-te. Matei-te por amar-te tanto; para que nenhuma outra mulher caísse nas malhas do seu amor nocivo e te levasse às garras da justiça. Não aguentarias estar aqui a ver tudo pelo xadrez. Aliás, tu sempre foste o mais fraco. Daí a violência. Tua perfeita camuflagem.

Enquanto penso nisto, a nossa trilha continua a ecoar no meu cérebro:

(...)

I wanna be just as close as the Holy Ghost is

And lay you down in a bed of roses

(...)

Fecho os olhos. Ocorre-me aquela noite. Enluarada quanto esta. Celebrávamos as bodas de flores e frutas. A nossa cama era um rio de rosas e pétalas de todas as cores. Bon Jovi gritava nos stereos do quarto. Cortamos o bolo. Brindamos com o teu champagne preferido, Möet & Chandon. Entregamo-nos um ao outro como nunca. Festejamos o amor.

Mais tarde, começaste a bater-me. A apertar-me o pescoço. A tentar me estrangular, do mesmo jeito que incontáveis vezes já havias tentado. Quando das tuas mãos escapuli, espetei-te várias vezes com a faca com que cortáramos o bolo. A nossa cama de rosas virou uma barca flutuando em sangue. Disse à juíza que foi legítima defesa, apesar de ser algo que, há muito desejava concretizar.

Lembro-me de tudo enquanto vejo a lua pelo xadrez e tu, amor, continuas deitado de costas na tua eterna cama de mármore com algumas rosas na superfície. E juro-te, amor, matei-te por amar-te tanto. Entretanto, algo apraz-me perguntar-te: é deleitoso estar aí desse lado? Saiba que eu me estilhaçava quando me chamavas nomes; morria, cada vez que me maltratavas. Voltei à vida quando aquela faca arrancou-lhe as entranhas.

A lua acena-me, enquanto continuo a manufacturar-te neste calabouço que já é uma crisálida entre os meus dedos; segreda-me que, um dia, a gente se reencontrará. Espero que até lá tenhas aprendido que toda a mulher é uma rosa que merece um zelo profundo.

Até breve, meu amor…


Por Fernando Absalão Chaúque



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