Escadaria de Cadáveres, de Albert Dalela

Escadaria de Cadáveres, de Albert Dalela


Há poucos dias concluí a leitura de Escadaria de Cadáveres, do escritor moçambicano Albert Dalela. Tarefa cumprida, meu único lamento foi transformado num questionamento: por que esse autor ainda não foi publicado no Brasil?

Tratamos aqui de um romance policial ambientado em Maputo que inaugura o chamado “Quarteto Criminal de Maputo”. A narrativa acompanha um ex-policial marcado por corrupção e desconfiança, que se vê envolvido em casos brutais como o feminicídio das trigêmeas e um episódio envolvendo um palhaço assassino. O livro constrói um cenário sombrio em que o horror e a estética caminham juntos, explorando a decadência moral e a fragilidade das instituições. Dalela desmonta a ideia clássica de herói, apresentando um protagonista ambíguo, capaz de gerar sentimentos contraditórios de amor e ódio, e que reflete a imperfeição humana. Em determinado momento, enquanto analisa a cena de um crime, o protagonista/narrador considera desumano que o corpo da vítima ainda permaneça ali, apenas coberto, mesmo que dias tenham se passado desde o assassinato. Mas ao sair do local, leva consigo uma garrafa de uísque, sem demonstrar remorso algum. Em outro instante, quando se depara com o assassinato de um bebê, confessa para si mesmo que não saberia como seria viver sem sua filha. E depois, sabemos por meio dele mesmo que a mulher levara a filha consigo em razão de suas agressões.

Eu diria que, bem mais do que se propor a ser apenas um thriller de suspense, a obra funciona como metáfora política e social, denunciando a desumanização e a crise de valores que atravessam a Moçambique contemporânea. É um romance que alia ritmo e tensão narrativa à reflexão existencial, aproximando-se do noir internacional, mas com uma especificidade local que reforça sua crítica às instituições e à condição humana.

O que temos nessa obra é uma narrativa policial marcada por corrupção, violência e desconfiança social, que pode ser lida em paralelo com trabalhos de outros compatriotas do autor, e cito – primeiramente – Nós Matamos o Cão Tinhoso, de Luís Bernardo Honwana, como duas formas distintas de refletir sobre a realidade moçambicana: uma alegórica e política, outra urbana e criminal.

Honwana, em 1964, ofereceu um retrato simbólico da opressão colonial, usando a metáfora do cão doente para expor a crueldade e a naturalização da violência. Sua obra é curta, mas incisiva, e se tornou um marco da literatura africana de língua portuguesa por denunciar, através da infância, os mecanismos de dominação e exclusão. Já Dalela, em Escadaria de Cadáveres, publicado em Moçambique em 2025, insere-se no gênero policial contemporâneo, narrando a trajetória de um ex-policial envolvido em casos complexos como “A Morte das trigêmeas” e “Palhaço Assassino”.

O protagonista, marcado por um passado de corrupção, revela-se astuto ao desconfiar das próprias vítimas, que muitas vezes são os verdadeiros culpados. Essa escolha narrativa desloca o foco da crítica política para a crítica social, mostrando como a violência e a manipulação se infiltram nas relações cotidianas e institucionais.

O paralelo entre as duas obras evidencia uma continuidade temática: ambas exploram a violência como elemento estruturante da experiência moçambicana, mas o fazem em registros diferentes. Honwana recorre à alegoria para denunciar o colonialismo e a opressão coletiva, enquanto Dalela utiliza o suspense policial para expor a corrupção e a degradação moral em uma sociedade pós-independência. Em ambos os casos, há uma preocupação em mostrar como a violência não é apenas um ato isolado, mas um sistema que molda comportamentos e subjetividades. Quando olhamos para os acontecimentos recentes em Moçambique, perxebemos que o título da obra já se apropria da metáfora da escadaria, como um "não lugar" que representa a incerteza de não saber se estamos subindo ou descendo, para tratar de uma sociedade confusa, às voltas com impasses políticos ainda sem aparente solução.

Além disso, a obra de Dalela dialoga com a tradição literária moçambicana ao trazer para o gênero policial uma dimensão crítica, evitando o mero entretenimento. O detetive, ao investigar, precisa compreender as motivações ocultas e os jogos de poder, o que aproxima sua narrativa da denúncia social que já estava presente em Honwana. Se Nós Matamos o Cão Tinhoso expõe a crueldade coletiva contra um ser indefeso, Escadaria de Cadáveres mostra como indivíduos e instituições podem manipular a verdade e perpetuar a violência. 

Assim, o contraste entre os dois livros revela não apenas a evolução da literatura moçambicana, mas também sua capacidade de reinventar formas narrativas para continuar refletindo sobre os dilemas sociais. Honwana inaugura uma literatura de resistência, enquanto Dalela atualiza essa tradição ao inserir a crítica em um gênero popular e dinâmico, o policial. Ambos, cada um a seu modo, reafirmam que a literatura moçambicana permanece comprometida com a exploração das tensões históricas e sociais que atravessam o país.

A frase “Nós éramos doze quando fomos para a estrada do Matadouro do Cão Tinhoso” pode ser lida como uma escolha simbólica de Luís Bernardo Honwana, que evoca a imagem dos doze apóstolos de Cristo. Assim como os discípulos foram incumbidos de uma missão marcada por dor, sacrifício e a necessidade de enfrentar a incompreensão do mundo, os doze meninos do conto recebem a tarefa de eliminar o cão doente, uma missão que carrega em si a brutalidade e a dificuldade de lidar com aquilo que é rejeitado pela comunidade. A presença do número doze sugere uma dimensão alegórica, em que a narrativa infantil se transforma em metáfora de uma missão coletiva, impregnada de sofrimento e de dilemas éticos.

Essa leitura ganha ainda mais força quando se considera o contexto histórico da obra, publicada em 1964, onze anos antes da independência de Moçambique. Honwana parece antecipar que, assim como os meninos enfrentam a dificuldade de resolver o problema do cão, o país enfrentaria enormes desafios para lidar com suas próprias feridas históricas e com as contradições do processo de libertação. A missão dos doze, portanto, não é apenas a execução de um ato cruel, mas a representação de um futuro coletivo em que a sociedade moçambicana teria de confrontar dores profundas, resistir à repetição da violência e buscar caminhos de reconstrução. Nesse sentido, o conto transcende sua aparência simples e se inscreve como uma alegoria da missão histórica de um povo que, ao se libertar, teria de enfrentar os fantasmas de sua própria história.

Outro escritor moçambicano de grande estatura, João Paulo Borges Coelho, não trabalha diretamente com o thriller policial nos moldes de Albert Dalela, mas sua obra dialoga com a ideia de denúncia institucional ao explorar, em romances como Narração Noturna e Rainhas da Noite, os mecanismos de poder, violência e corrupção que atravessam a história moçambicana. Dalela, aproxima-se mais do gênero policial contemporâneo, com protagonistas ambíguos e moralmente frágeis, o que permite comparações com figuras como Harry Hole, do norueguês Jo Nesbø - mas isso não sinaliza, de forma alguma, que sua literatura esteja "descolada" de uma tradição moçambicana.

Enquanto Honwana, em Nós Matamos o Cão Tinhoso, recorre à alegoria para denunciar a brutalidade colonial, Borges Coelho constrói narrativas históricas que revelam como as instituições moçambicanas foram moldadas por invasões, exploração e manipulação política. Em Rainhas da Noite, por exemplo, o olhar de um policial e de personagens ligados a uma mina de carvão expõe tensões sociais e econômicas, sugerindo que a violência institucional não se limita ao passado colonial, mas se prolonga em diferentes formas de dominação. Embora não seja um romance policial clássico, há uma atmosfera de investigação e desconfiança que aproxima sua obra da lógica do thriller, ainda que com foco histórico e político.

Albert Dalela, em Escadaria de Cadáveres, insere-se mais diretamente no gênero policial, com um protagonista ex-policial marcado por corrupção e desconfiança. Essa figura lembra os anti-heróis do noir contemporâneo, como Harry Hole, de Jo Nesbø, que é alcoólatra, insubordinado e atormentado, mas genial na investigação. Tanto Dalela quanto Nesbø exploram a fragilidade moral de seus protagonistas, mostrando como o investigador pode ser tão problemático quanto os criminosos que persegue. Essa ambiguidade reforça a crítica social: em vez de confiar plenamente na autoridade policial, o leitor é levado a questionar o sistema e suas falhas.

O apagamento do nome, no caso de Dalela, parece menos um descuido e mais uma escolha estética e política: ao não individualizar o personagem, o autor sugere que ele não representa apenas um homem, mas sim a condição de muitos, um reflexo coletivo dos efeitos de um sistema sobre a sociedade. O protagonista sem nome torna-se um passageiro dentro de uma engrenagem maior, símbolo de uma realidade em que responsabilidades, objetivos e méritos são constantemente repartidos e adiados, e em que os pactos sociais recaem sobre os indivíduos sem que haja soluções efetivas. Esse anonimato, portanto, reforça a ideia de que a violência e a corrupção não são exceções, mas parte de uma lógica difusa que atravessa a vida cotidiana, dissolvendo a individualidade em favor de uma representação mais ampla da crise institucional e moral.

Esse paralelo entre Dalela e Nesbø evidencia uma convergência: ambos usam o thriller policial para expor o esfacelamento das instituições e a corrosão moral dos indivíduos que deveriam defendê-las. No caso moçambicano, essa escolha narrativa ganha uma dimensão particular, pois reflete a tensão entre a promessa de independência e a persistência de práticas corruptas e violentas. Borges Coelho, ainda que em outro registro, também participa dessa denúncia, ao mostrar como a história do país é atravessada por estruturas de poder que se perpetuam. 

 

Em síntese, há uma dinâmica clara na literatura moçambicana contemporânea: seja pela alegoria de Honwana, pela reconstrução histórica de Borges Coelho ou pelo thriller policial de Dalela, a violência e a fragilidade institucional aparecem como temas centrais. Dalela, ao aproximar-se de modelos internacionais como Harry Hole, insere Moçambique no circuito global do noir, mas com uma especificidade local que reforça a crítica às instituições e à moralidade em crise.

Em Escadaria de Cadáveres, o autor concebe um thriller policial e noir nada convencional, pois transcende o gênero, tornando-se denúncia política e reflexão existencial. Sua obra insere-se na tradição moçambicana de crítica social, mas com uma estética noir que aproxima o país de uma literatura global, onde o horror e a beleza se entrelaçam para revelar a fragilidade das instituições e da própria condição humana.

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Texto escrito por : Cláudio Comendini, escritor e crítico literário brasileiro.

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Albert Dalela nasceu em Maputo. É formado em Jornalismo e Linguística pela Universidade Eduardo Mondlane. Tem-se dedicado ao jornalismo e à tradução, colaborando com vários órgãos nacionais e internacionais, incluindo ONGs. Seu primeiro romance foi Gole de Lâminas.

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