Conversa d’Além Mundo com Tuahir de Terra Sonâmbula


‘‘Ria, miúdo. Rindo as alegrias acontecem’’. – Tuahir

            Há vidas que se perdem na vida dos outros; canções compostas, que nuncam conheceram o sabor da ribalta, vivem aprisionadas nas gavetas aguardando a tão desejada liberdade. Por vezes, morrem sem nunca ter conhecido a fagulha do sucesso; serem escolhidas como suplentes para substituir os protagonistas em caso de qualquer incidente.

            Segundo Charles Chaplin, viemos ao mundo como protagonistas da nossa própria história e não meros figurantes que dão sentido e brilho à vida de outrem. Infelizmente, tem acontecido o seguinte: aplaudirmos a nossa história como se fossemos meros espectadores; antes fôssemos figurantes, ao menos são lembrados quando é para dar ênfase aos feitos do protagonista. But anyway!

            O convidado de hoje, não se fez de rogado. Apesar da sua trajectória parecer uma encenação de coadjuvante no livro ‘‘Terra Sonâmbula’’, do escritor Mia Couto, Tuahir invadiu a cena como um dos personagens principais para contar e viver o renascimento de uma pátria fragmentada, ao lado do Muidinga. Ocorre-me algo no momento; talvez fosse necessário que tivessemos os dois esta conversa, para compreendermos como foi actuarem juntos na Terra Sonâmbula.

Conversa d’Além Mundo com Tuahir de Terra Sonâmbula

Síul Leumas (SL): Tuahir, o que achas dessa ideia?

Tuahir (T): Vamos instalar casa aqui mesmo.

SL: Como foi receber o convite para actuar na Terra Sonâmbula?

T: Parece que o fogo gosta de nos ver crianças. Vou-lhe contar, miúdo. Se não voltarmos à estrada não perdemos nada. Agora, acabou-se a conversa. Apague a fogueira...

SL: Calma, mal começamos. Como foi contracenar ao lado do Muidinga? Praticamente parecias o mestre dele em todas cenas. O guião contemplava esse quesito de habilidades adicionais para actuar?

T: Veja essa corda satanhoco[1]. Veja! Nem quero lhe ver pensando nesse assunto. Olha lhe vou dizer uma coisa: não vês que perdeste a tua sombra? Quanto falta para acabar esses cadernos? Não leia já.

SL: Tuahir tem família?

T: Vivi num tempo em que o amor era uma coisa perigosa. Tu vives num tempo em que o amor é coisa estúpida.

SL: Não acredita no amor?

T: Quem morre no lodo se transforma em peixe. Foi o que fez essa guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos.

SL: Fala da guerra amorosa ou do cenário da Terra Sonâmbula?

T: Lhe vou confessar miúdo. Sempre estámos aqui pertinho, a reduzidos metros. Vamos para o machimbombo...

SL: O que há de especial ou valioso no machimbombo? Na actuação, foi notório que não queria se apartar do mesmo.

T: Sabe bem uma sombrinha assim.

SL: Interpretando a Terra Sonâmbula, podemos notar em Muidinga a metáfora de um país desestruturando que busca se erguer do abismo causado pela guerrra, e em Tuahir um governo despreocupado em restaurar o equilíbrio social do país. Qual é o teu parecer em relação a crónica política apresentada pelo Mia Couto?

T: Não lhe contei o que sucedeu com o pescador Nipita? Você não sabe o que pode fazer um morto incompleto.

SL: Teme alguma represália?

T: Cortaram essa corda com faca! Da maneira que nem posso me defender.

SL: A dada altura no decurso da Terra Sonâmbula, parece que o enredo vos sugou a identidade ao ponto de confundirem a realidade com a ilusão. A psicose foi causado pelos cadernos do Kindzu?

T: Nem fale. Te dou conselho: não confie em homem que não sabe mentir.

SL: A que se devia a tal ‘‘mentira’’?

T: Não confia, miúdo. O homem é como a casa: deve ser visto por dentro!

SL: Falando em dentro, acha que Farida existia ou era invenção do Kindzu?

T: Há mulheres que são chuva, outras cacimbo. Essa tal Farida deve ser uma que vale a pena a gente se despentear com ela. Devia ser bonita, a gaja.

SL: Os cadernos do Kindzu afagam o medo que Muidinga tem do escuro nocturno, te servindo em simultâneo de relator dos factos contidos nos cadernos. Visto que Tuahir é analfabeto, o que te cerficava que os relatos do Muidinga não eram meras invenções dele?

T: Espera, miúdo. Deixa eu sentar perto... É por causa você está pensar só com a cabeça Pensa com todo corpo!

SL: Passa muito tempo desde a sua actuação na Terra Sonâmbula, nunca mais ouvimos falar do Tuahir. Depois do projecto, Mia Couto te chamou para outros?

T: Nada. Nem lembro isso.

SL: Se actualmente o chamasse, aceitaria?

T: Mais tarde quando estiver a água a subir...

SL: Porquê?

T: A febre não é derivada dos mosquistos. É o canto desses pássaros que me faz quenturas.

SL: Podemos sem relutância, afirmar que Tuahir é a estrela-maior da Terra Sonâmbula e que o projecto foi um garboso sucesso, ao ponto de ser adaptado para um filme de longa-metragem. Tuahir ganhou dinheiro com Terra Sonâmbula?

T: Às vezes me apetece arrumar este machimbombo como eu fazia com a estação. Mas agora não vale a pena. Também não vale a pena responder.

SL: Algum motivo te força a não responder?

T: Não me leve mais para o machimbombo. De noite, está cheio de ratos. Vou ser comido...

SL: Trabalha exclusivamente com Mia Couto, ou está aberto a novas colaborações?

T: Cada vez vamos chamar atenções. Agora vivo de cor e salteado.

SL: Que conselhos daria a jovens actores que anseiam atingir o patamar do Tuahir?

T: Não pare de ler. Eu é que digo. Vá, faça como te digo. Experimenta me negar, ainda lhe despacho umas porradas.

SL: Ainda ouviremos o nome Tuahir brilhando nos grandes palcos literários, ou ficou para sempre arquivado em Terra Sonâmbula?

T: Essa palavra só me desgosta... sinto falta das estórias.

Por Síul Leumas

Referência bibliografia usada nas respostas do Tuahir:

Couto, M., Terra Sonâmbula, 2ª edição, Colecção de bolso, Fundação Fernando Leite Couto, Maputo-Moçambique, 2024.


[1] Impropério equivalente a sacana.

Enviar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem