Crónica da Sexta-feira por Luís Nhazilo


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Estou cansada, o meu marido não me toca, não mais me vê. Sinto-me vazia, o meu esposo troca-me a sério. Já não me ama; desde semana passada, tristemente, é atraído por sextas-feiras, só volta no domingo. Durmo sozinha, suporto as tristezas, as excitações, os temperamentos, sozinha. Até brigo sozinha. Reparo naquela camisa branca do meu marido, as lágrimas me ocorrem como naquela quarta-feira de 10 de Dezembro, quando ele estacionou o seu carro de marca Vitz para trair-me. Estou deitada; entrego-me a homens da noite de propósito, eles que se esmaguem, que turras não lhes faltem. Às vezes, no Domingo, quando o João, meu marido, chega, não o vejo mais como homem, como actor do cinema me fazia viver; é como se encarasse uma outra mulher dentro dele sabe, com os seus modos babados, com a cerveja nos seus términos gritando o meu nome. Não me encanto mais com o seu linguajar. O João só aparece para dormir: quando quer dorme antes, quando entende, noutros dias, dorme depois; não faz diferença. Continua inútil como sempre. Faz Quinze anos que ele não me faz sentir mulher; o João não me conhece mais, despacha os serviços quando lhe apetece. Chegou irreconhecível, ausente de si próprio, magro como sempre, bôbo e a salivar  como cão vadio do bairro. Mesmo tendo um sorriso não posso mais gastá-lo com ninguém,  não posso reclamar, já reclamei e, os familiares disseram-me para aprender a calar. "Se quiseres falar, dê-nos um neto". E eu calo.

Mantenho-me calada porque não posso ser mãe, sou estéril. O meu marido sai com outras porque não atura estar abraçado a mim, diz que não me quer fora de casa, fora da vida dele; diz que não quer ter a segunda. Não entendo. Tentei arranjar a minha vida, até os curandeiros não conseguiram desvendar o segredo; o meu marido, João, ciranda distante como nunca, não me acha mulher. São  quatro e meia, conto as madrugadas quanto conto as lágrimas, conto as dores quanto conto o sorriso de menina, os sonhos de ser mãe, os primeiros beijos com Lucas, do Alto mãe, toda minha vida ficou lá, nas bonecas, latinhas e nos falsos casamentos; a minha sinceridade findou lá. Estou acordada a observar  o meu João, imagino todo o seu romantismo, imagino-o sem a garrafa de cerveja, quando chegava cedo, aquele sem igual, tudo farsa, o João, meu marido, morreu lá, ainda menino. Dói-me a alma, cadê as escadas?, não posso mais descer, há lá em cima o meu ser; tenho pressa de morrer, essa vida não vale nada. A madrugada é o único tempo que fico molhada sem intervenção do João. Ele nem tem filho fora; eu nunca desejei o trair; nunca tentei com o outro, mas a minha amiga, Joana, pode ter razão e, devo tentar fora, se eu engravidasse, o meu esposo ficaria feliz, porque na verdade, sabe lá Deus que é estéril aqui em casa.

Por Luís Nhazilo

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